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Por que a existência de 1 nonilhão de vírus na Terra é uma boa notícia

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Por que a existência de 1 nonilhão de vírus na Terra é uma boa notícia


Pandemia de Covid-19 não ajudou muito a reputação desses seres, mas várias espécies foram ou são essenciais para o surgimento e manutenção da vida no planeta. Os vírus não são parentes da grande família que surgiu há 4 bilhões de anos, das quais os humanos são parte
Getty Images via BBC
Estima-se que haja mais vírus na Terra do que estrelas em todo o universo.
A informação pode soar assustadora em meio a uma pandemia viral, e muitos cientistas de fato preveem novas pandemias, potencialmente tão ou mais destrutivas que a da Covid-19 em um futuro não muito distante.
Mas a ciência também faz uma ressalva: as pesquisas com os vírus conhecidos até o momento apontam que menos de 10% deles fazem mal aos humanos.
A grande maioria, na verdade, não causa problemas de saúde e várias espécies foram e são essenciais para o surgimento e manutenção da vida no planeta. Algumas, inclusive, nos protegem de doenças bacterianas.
Células do vírus HIV (viriões), em imagem microscópica produzida em 2011
Maureen Metcalfe, Tom Hodge/CDC/AP
Os números por trás das comparações são grandiosos: a estimativa é de que existam no planeta um nonilhão (o algarismo 1 seguido de 30 zeros) de vírus individuais (como há 7 bilhões de humanos), pertencentes a 6,5 mil espécies já catalogadas e a centenas de milhares de outras que sequer são conhecidas até o momento, explica à BBC News Brasil o biólogo e virologista Rodrigo Araújo Rodrigues, da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP).
Esse número pode ser mais alto do que o de estrelas no universo observável, que, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) é de 10 setilhões de estrelas (1 seguido de 22 zeros).
Segundo a pesquisadora Ana Cláudia Franco, do Laboratório de Virologia do Instituto de Ciências Básicas da Saúde (ICBS) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a vasta maioria dos vírus que existem no planeta infecta outros seres vivos que não os humanos.
“Mesmo entre aqueles que se replicam em seres humanos, a maior parte não causa doença grave”, destaca.
O vírus da zika (pontos pretos) em tecido humano, visto por microscópio
Cynthia Goldsmith/CDC
Além disso, de acordo com ela, é importante deixar claro que, do ponto de vista evolutivo, não é interessante para o vírus ser muito agressivo ou letal para seu hospedeiro, pois, à medida em que causa a sua morte, também não consegue mais se replicar e tem que “encontrar” um novo hospedeiro antes que seja inativado no meio ambiente (por ação de desinfetantes, luz UV, calor e outros meios).
Rodrigues, da UFOP, estima que menos de 10% dos vírus conhecidos sejam capazes de infectar e causar algum tipo de doença no ser humano.
“Alguns podem nos ser prejudiciais de forma indireta, no entanto, ao afetarem animais e plantas de interesse comercial, levando à queda na produção de alimentos”, ressalva.
Mas esses também não são a maioria.
“A maior parte dos vírus no planeta são parasitas de bactérias e, nesse sentido, trazem um benefício enorme para nós”, diz.
“Eles são responsáveis por controlar a população bacteriana e impedir que o planeta seja consumido por elas. Logo, não apenas os seres humanos, mas todos os seres vivos dependem muito deles para a própria sobrevivência.”
O pesquisador Fabrício Campos, da área de Engenharia de Bioprocessos da Universidade Federal de Tocantins (UFT), tem uma estimativa mais conservadora sobre o número de espécies de vírus que podem causar doenças: “É menos de 1%”.
“Há uma tendência de estudarmos e dedicarmos uma maior quantidade de recursos para aqueles que causam prejuízos econômicos para a produção de alimentos ou que colocam em risco a nossa saúde.”
Assim, prossegue ele, é muito fácil fazer uma lista de vírus que causam doenças, desde um rinovírus que causa um resfriado — podemos ter cerca de 50 resfriados por rinovírus ao longo da vida — até o vírus ebola, considerado um dos mais letais.
“Mas, somente no nosso genoma (que possui 3,2 bilhões de pares de bases) nós temos 8,3% de genes virais (cerca de 265 milhões de pares de bases) como resultado de infecções ocorridas há milhares de anos e que foram transmitidas a nós por nossos ancestrais”, explica.
‘Somos um pouquinho de vírus’
Reprodução em 3D do modelo do novo coronavírus (Sars-CoV-2) criada pela Visual Science. Dentro do verde mais claro, as bolinhas vermelhas representam o ‘centro’ do vírus, o genoma de RNA; as bolinhas verdes são proteínas ‘especiais’, que protegem esse material genético. Ao redor do verde, o vermelho mais fraco é a ‘casca’, feita de uma membrana retirada da célula hospedeira. O vermelho mais vivo são as proteínas ‘matrizes’ codificadas pelo vírus. As ‘pontas’ que saem do vírus são as ‘lanças de proteínas’, que o vírus usa para se conectar às células hospedeiras e infectá-las.
Reprodução/Visual Science
Esses vírus são chamados de retrovírus endógenos e fazem parte do DNA humano.
“É bem possível que esse percentual expressivo de genomas virais e sua forma de inserção aleatória tenha nos moldados para a forma ou aparência do que somos hoje”, diz Campos.
“Então, podemos afirmar que todos nós somos um ‘pouquinho de vírus’. Se temos 30 trilhões de células no nosso organismo e mais 100 trilhões de bactérias, e todas essas células e bactérias podem potencialmente estar infectadas por vírus, nós somos na verdade um ‘montão’ ambulante deles.”
As diferentes espécies delas no organismo, acrescenta Campos, estão competindo por espaço e alimento a todo momento.
“Toda vez que determinada população de bactérias se multiplica em excesso, os vírus entram em ação para controlar este crescimento excessivo delas, impedindo infecções e mantendo a nossa saúde”, explica. “Se não fossem os vírus, é muito provável que todos nós tivéssemos diarreias constantes.”
Apesar de sua importância para a vida no planeta — para o bem ou para o mal — ainda há uma grande discussão na comunidade científica se os vírus são ou não seres vivos.
Alguns vírus cometem muitos erros ao replicar seu genoma e isso complica nossa reação a eles porque se transformam
GETTY IMAGES
“Do ponto de vista biológico, podemos considerar duas situações: quando ele está fora do seu hospedeiro não é um ser vivo, pois não se reproduz e não evolui”, explica Rodrigues. “Mas, uma vez dentro, ele seria vivo, pois se reproduz e evolui naturalmente. Independentemente de (serem considerados) ser vivo ou não, eles exercem um impacto muito profundo no nosso planeta e na nossa vida em geral.”
Vírus no combate a bactérias
Isso vem de longe, beneficiando a vida na Terra.
Segundo Campos, os vírus, de uma maneira geral, são essenciais para a vida, desde a sua função no ciclo do carbono até os benefícios que trazem para os seres humanos. Eles infectam e destroem bactérias em comunidades microbianas aquáticas e são um dos mecanismos mais importantes de reciclagem do carbono e de nutrientes em ambientes marinhos.
Além disso, esses organismos limitam a proliferação de algas nos oceanos — a biomassa marinha é composta por 70% de micro-organismos.
“Os vírus infectam e matam diariamente 20% dessa biomassa, reciclando as macromoléculas e fornecendo alimento para a base da cadeia alimentar marinha, ou seja, os fitoplâncton.”, conta Campos.
“São também os principais agentes responsáveis pela contenção de algas nocivas, mantendo em equilíbrio essas populações.”
“O surgimento dos mamíferos placentários (com placenta) e, por consequência, dos seres humanos, está diretamente relacionado com os vírus”, diz Rodrigues.
“No passado, foram os chamados retrovírus endógenos que infectaram os ancestrais dos mamíferos e providenciaram os genes necessários para que a placenta pudesse ser desenvolvida e, por fim, o total desenvolvimento dos embriões dentro dela. Além disso, os vírus vêm moldando a evolução do ser humano desde o seu surgimento, atuando como importante fator de pressão evolutiva. Precisamos estar sempre nos adaptando para não perecermos diante deles, o que chamamos tecnicamente de uma coevolução.”
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